transporte na Europa
O que faz o transporte na Europa funcionar?
14/09/2017

No Brasil existe a ideia de que o transporte na Europa funciona porque é feito, principalmente, por ferrovias. Essa afirmação vem de políticos, empresários e até da própria imprensa. Realmente as ferrovias são a melhor opção para muitos tipos de carga, mas é um mito que no velho continente elas são mais importantes que as rodovias. O número não é 100% preciso, por juntar informações de diversos países, mas o transporte ferroviário responde por apenas 18% de tudo que é transportado dentro da União Européia, enquanto o rodoviário equivale a 70%. Mais que no Brasil, onde esse número não chega a 60%.

Se esse não é o segredo para o transporte europeu funcionar, então qual é? A diferença não está em um fator isolado e sim em uma série de fatores.

 

Descanso

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Um fator que faz muita diferença mas não recebe sua devida atenção em terras brasileiras é a legislação sobre o descanso do motorista. Assim como no Brasil, na Europa o motorista tem que parar 11 ou 9 horas para dormir. Mas enquanto no Brasil se discute diminuir esse descanso, os estradeiros da Europa pensam diferente.

“Eu vejo que se nós não fizermos o descanso, entra o sono e nós podemos ter um acidente e matar uma família. É melhor o descanso” afirma Joaquim José Martins de Barreiros/Portugal. Segundo ele, a lei já existe há muitos anos, mas a fiscalização era baixa. Desde que se começou a fiscalizar mais fortemente os horários dos motoristas, os acidentes diminuíram muito.

O espanhol José Severa, de Granada, diz que o aumento da fiscalização só trouxe benefícios para o motorista empregado, que agora não pode ser obrigado a emendar uma viagem em outra. “Hoje não existe isso de passar o dia carregando e ter que puxar a noite toda e te mandam correr. Está bem melhor.”

Mas parar onde, é a pergunta no Brasil. Existem poucos lugares para parada e a maioria desses lugares, quando de qualidade, são cuidados por empresas particulares. No site do Trucão, elaboramos uma lista de paradas gratuitas para o estradeiro – clique aqui para conferir.

Com o argumento de que não há estrutura para fazer o descanso, existem tentativas de diminuir as horas de parada e até banir o descanso semanal, o que deveria estar fora de cogitação, já que a falta de descanso afeta a saúde do motorista. Não seria melhor brigar pela construção de infraestrutura ao invés de brigar para não fazer o descanso? Porque na Europa, desde que a fiscalização do horário de parada ficou forte e se adotaram outras medidas de segurança viária, o trânsito ficou muito mais seguro.

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A meta do continente é diminuir em 7% por ano o número de acidentes nas rodovias. Nos últimos 10 anos eles caíram pela metade. Infelizmente não podemos dizer o mesmo do Brasil. Aliás, no Brasil a média de mortes anuais em rodovias é de 42 mil pessoas. Em toda a União Européia, esse número foi de 28 mil em 2012. Ou seja, mesmo com mais que o dobro da população do Brasil, com muito mais quilômetros de estradas e mais carga sendo transportada por elas, por lá o número de mortes e de acidentes é bem menor.

 

Qualidade das estradas

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Outro fator diferencial são as estradas. Mesmo nas não pedagiadas, o asfalto é de qualidade e a sinalização é boa. Nas pedagiadas a situação é igual. Os veículos na Europa também ajudam, caminhões EURO 3 já são difíceis de se encontrar, ou seja, os veículos são novos. Menor chance de provocarem acidentes por pane, por peças que soltam e etc.

Já no Brasil, de acordo com um estudo da CNT que avaliou as condições das rodovias pavimentadas brasileiras nos últimos 13 anos, buracos, ondulações e fissuras são encontrados em mais da metade das estradas de todo o país. O estudo mostrou que por aqui as metodologias usadas estão ultrapassadas, quando comparadas aos métodos de construção e reparação de rodovias em outros países. Também há pouco investimento em obras e falha no gerenciamento, na fiscalização e na manutenção das estradas.

Essas falhas administrativas causam mais gastos ao transporte do país. Somente em razão da má qualidade do pavimento, em 2016, o setor de cargas registrou um gasto excedente de 775 milhões de litros de diesel, que provocou um aumento de custos da ordem de R$ 2,34 bilhões. Para saber mais sobre o assunto, consulte a matéria do Pé na Estrada sobre a durabilidade da pavimentação das rodovias no Brasil – clique aqui para ler.

 

Educação do motorista

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Por fim, tem a educação do motorista. Na Europa, de forma geral, não é comum fazer ultrapassagens perigosas, colar na traseira do outro, cortar, fechar, rodar pelo acostamento, invadir a contramão, práticas comuns no trânsito brasileiro que aumentam o estresse de dirigir e diminuem a segurança no trânsito. A frequência dessas práticas faz toda a diferença.

“O brasileiro é um motorista despreparado. A Espanha, que reduziu 80% da violência no trânsito nos últimos 15 anos, pode nos servir de exemplo. É preferível o infrator ter certeza da punição do que ter a esperança de impunidade. É preciso investir na formação e na educação dos condutores, sem esquecer de ter vias e veículos seguros”, afirma David Duarte Lima, presidente do Instituto de Segurança no Trânsito.

O fator humano e as práticas de motoristas e pedestres no trânsito tem uma participação significativa como agente causador dos acidentes. A educação no trânsito não se limita apenas a ensinar regras de circulação, mas também deve contribuir para formar cidadãos responsáveis, autônomos, comprometidos com a preservação da vida. No cotidiano, o cidadão assume diversos  papéis,  em diferentes momentos: pedestre, passageiro, condutor. Agir cooperativamente em cada uma destas situações torna o trânsito mais harmônico e seguro. É importante lembrar que uma atitude simples, uma atenção a mais ou uma gentileza podem desarmar a irritação do outro e, consequentemente, evitar acidentes.

 

 O que faz as estradas do Brasil e da Europa tão diferentes?

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Com estrada boa, veículos modernos, motoristas descansados e com educação no trânsito, não é difícil entender por que os índices de acidentes na Europra são tão menores.

Pense em uma viagem de São Paulo a Salvador. Quanto tempo demora? Agora pense se a mesma viagem fosse feita apenas por rodovias no padrão Castello Branco ou Bandeirantes, onde é possível manter a média de velocidade já que a pista e a sinalização são boas. Se essa via fosse exclusivamente usada por veículos novos, que têm menor chance de dar defeitos e parar na rodovia causando acidentes ou lentidão. Pense também se nesse trajeto você não encontrasse motoristas dirigindo de forma perigosa, então, consequentemente, é possível que não se deparasse com nenhum acidente até chegar ao destino. Quanto isso encurtaria o tempo de viagem? Esse tempo extra então não poderia ser usado para descansar e não correr o risco de se causar acidentes por sono? Que, por sua vez, além do perigo para os envolvidos, atrasaria a viagem de muitas outras pessoas? Então, é por isso que o transporte funciona na Europa.

E pensa que o governo de lá está satisfeito? Não, o governo continua num plano de seguridade da via que vai até 2020. Até lá, as medidas previstas são: investir em mais infraestrutura, em veículos mais inteligentes e em educação e formação do condutor de qualquer veículo que esteja na estrada. Pelo que podemos ver, o plano está dando certo. E no Brasil, o que estamos fazendo para melhorar a segurança? Diminuir o horário de descanso é solução? E você, quando dirige, está fazendo a sua parte?

 

Por Paula Toco e Pietra Alcântara

 

 

 

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